Tércio Pereira está desde 2001 no Instituto Anelo (FOTO: Evandro Possatto)
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Tércio Pereira: exemplo do poder transformador da música

Se tem uma pessoa que a gente pode considerar a cara do Instituto Anelo, esse alguém é Tércio Pereira. Hoje com 41 anos, o professor de Prática de Banda Iniciante, saxofonista, flautista, montador e arquivista da Orquestra Anelo chegou ao Instituto em 2001, ou seja, logo no segundo ano do projeto, e é um exemplo de que a música realmente transforma vidas. Tanto que ele deixou uma posição no funcionalismo público municipal para se dedicar 100% à música.

“Comecei a trabalhar quando tirei a Carteira de Trabalho, aos 14 anos, e nunca parei. Tirei a Carteira de Habilitação no mês do meu aniversário de 18 anos e já comprei minha primeira moto e meu primeiro carro, pois fazia economias para tal. E quando completei 18 anos, abriu concurso para agente de trânsito em Campinas. Prestei o concurso e passei”, conta o músico, que trabalhou na Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) por 12 anos.

Porém, a música já fazia parte da vida de Tércio. Ele, que tem músicos na família, incluindo um tio saxofonista dos bons e outro que foi cantor na escola de samba Sociedade Rosas de Ouro, de São Paulo, começou a ter aulas de cavaquinho aos 17 anos. Foi por indiciação de seu professor, com quem conversava sobre a vontade de aprender saxofone, que, em 2000, Tércio chegou ao Projeto Unibanda, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Ele me falou desse projeto, que ensinava instrumentos de sopro. Eu não aguentei, fui até lá conhecer e me inscrevi, claro. A partir desse momento começa minha trajetória como saxofonista e flautista.” Durante os cinco anos em que participou do projeto, Tércio tocou nas bandas da Unicamp, na Orquestra Filarmônica de Campinas, na Orquestra de Flautas, na Banda Carlos Gomes e na Corporação Musical Campineira dos Homens de Cor.

E foi na mesma época em que começou no Projeto Unibanda, atualmente chamado Escola Livre de Música (ELM), que Tércio chegou ao Anelo. “Assim que o Anelo começou a funcionar, conheci o Luccas (Soares, fundador e coordenador geral), e em 2001 fui convidado a participar da primeira Prática de Banda. O Anelo, pra mim, representa músicas e músicos com qualidade. Mostra que uma periferia pode ter música instrumental e músicos excelentes”, afirma o professor.

Ao longo desses 19 anos, Tércio se tornou parte importante da família Anelo e, o que merece todos os louvores, não parou de investir na própria formação como músico e educador. Ele cursou MPB e Jazz no Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, em Tatuí, de 2004 a 2006; estudou na Faculdade Souza Lima, em São Paulo, de 2008 a 2010; fez curso livre de Áudio Analógico e Digital, de 2010 a 2014; e também de Sonorização de P.A. e Estúdio.

Em 2018, formou-se pedagogo pela Faculdade Anhanguera de Campinas. “Hoje posso dizer que sou um professor/educador. Estou vivendo a melhor fase de minha vida”, diz Tércio, que além de lecionar no Instituto Anelo é professor de cavaco, saxofone e flauta transversal nas escolas Master Guitar, em Barão Geraldo, e Cia do Groove, no Centro. Também é professor e instrutor de Bandas e Metais da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

“Trabalho com duas escolas por ano, onde faço a captação dos alunos interessados em música, sem idade e restrições, para aprender desde o básico em rítmica musical e corporal até instrumentos de sopro”, explica. O objetivo desse projeto, conta, é o de formar bandas sinfônicas escolares que substituem as antigas fanfarras. São oferecidas aulas teóricas e técnicas musicais, acompanhadas de todo um processo de lapidação. Ao final do semestre, acontecem as apresentações.

Mesmo com todas essas atividades, Tércio Pereira ainda se dedica a outra de suas paixões: o samba. “Quem me conhece sabe que nasci no samba”, diz o músico, que já companhou nomes importantes do gênero como Almir Guineto, Fundo de Quintal, Marcelinho Freitas, Márcio Art, Joãozinho Carnavalesco dos Originais do Samba, Nereu do Trio Mocotó, Teresa Gama e Matoli do Clube do Balanço. Atualmente integra os grupos Nossa Maneira, de Campinas, e Samprazer, de São Paulo.

Além de apresentação em shows, ele ainda gravou com alguns grupos de samba da região, tais como o Sempre à Frente, de Indaiatuba, e o Grupo Presença, de Campinas; com Thiago Carvalho e Banda, de Barão Geraldo, trabalho este dedicado ao pop; e com o projeto Dom Bosco Soul, criado pelo amigo e professor Fábio Fidélis, no qual fez produção, arranjos, mixagem, masterização e gravação. “Foi um trabalho maravilhoso”, afirma.

Tércio Pereira (1º à direita) com o Anelo 6teto, que viajou para a África do Sul em 2019

VIAGENS INTERNACIONAIS

Graças ao Instituto Anelo, Tércio Pereira viajou três vezes ao Exterior: Itália, em 2015 e 2016, e África do Sul, em 2019. “Pensei, sim, em um dia fazer uma viagem ao Exterior, conhecer novas culturas, lugares bonitos e tal. Mas nunca havia imaginado que a música poderia me proporcionar isso”, diz, lembrando do primeiro convite para que o Anelo participasse do Arcevia Jazz Feast, seminário de jazz e improvisação que acontece anualmente na cidade de Arcevia, na Itália.

Ele conta que aceitou de pronto o convite feito por Luccas Soares para integrar o grupo, que fez bazar, vendeu pizzas, se apresentou em festas juninas e fez shows em praças públicas pagas pela Prefeitura de Campinas com o objetivo de levantar fundos e custear a viagem e hospedagem. “Fomos com a cara e a coragem e muita força de vontade. Uma das melhores experiências da minha vida.” Em 2016, o músico voltou a participar o evento, que se tornou parceiro do Instituto Anelo.

Em 2019, foi a vez de embarcar para África do Sul, para onde viajou com o Anelo 6teto, vejam só, como percussionista. “Pela primeira vez me senti um artista de verdade”, diz Tércio sobre a participação do grupo no Standard Bank Jazz Festival na cidade de Makhanda. “É uma baita estrutura, festival internacional. Este tenho vontade de retornar sim, porque fizemos boas amizades, me fez crescer como pessoa e me fez aprender o idioma” – na África do Sul fala-se inglês.

“A música me levou e me levará a lugares que nem imagino, e sou grato ao Anelo e ao Luccas Soares por isso”, completa o professor, que tocou em bandas de baile, de rock e de casamentos, e se mostra um pai orgulhoso pelo filho Gustavo dar os primeiros passos na música. “Ele já está até arriscando uns estudos de flauta transversal e fez aulas no Anelo no semestre passado. Adoro, claro, terá todo o incentivo e apoio do pai.”

A FRASE

“Voe com a música, ela transforma e eu acredito.”
(Tércio Pereira)