Filipe Lapa na sede do Instituto Anelo (Foto: Edis Cruz)
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Filipe Lapa: de aluno a professor do Instituto Anelo

Filipe Ferreira Lapa chegou ao Instituto Anelo quando tinha 8 anos. A porta de entrada foi o curso de Musicalização Infantil, com aulas de flauta doce. Não terminou o ciclo por motivo de “força maior”: queria mesmo era tocar bateria. Menino decidido, pediu ao pai que conversasse com Luccas Soares, coordenador e fundador do Anelo, sobre a possibilidade de mudança de curso. Foi atendido. Assim, ele trocou as suaves notas do instrumento de sopro pelo ritmo da bateria.

Hoje com 22 anos, o jovem baterista, além de integrar a equipe de professores do Anelo – instituição patrocinada pela CPFL Energia que oferece aulas gratuitas de música no distrito do Campo Grande, em Campinas (SP) -, tornou-se músico profissional respeitado na cena musical da cidade, com uma carreira das mais promissoras e sonhos a serem realizados. Entre eles, o de ter um trabalho autoral.

Nascido e criado em Campinas, na região do Jardim Florence, onde fica a sede do Instituto Anelo, Filipe está entre os muitos talentos revelados pela instituição. Mas ele lembra que, quando criança, sua relação com a música era bem tranquila. “Era uma relação de brincadeira mesmo, como soltar pipa ou jogar bola”, conta ele, que teve o primeiro contato com a bateria na Igreja Batista do bairro Satélite Íris. “Tinha um grupo de louvor e aos domingos eu via o baterista tocar. Isso despertou em mim a vontade de aprender o instrumento.” Ele até ganhou dos pais, Wagner e Marilene, uma bateria infantil.

Filipe começou no Anelo ainda na infância, aos 8 anos

No Anelo, seu primeiro professor foi Marcelo Gomes, com quem aprendeu ritmos como o rock e o pop. Depois, passou a estudar com Devanir Juvêncio, o Deva, que, segundo Filipe, dava uma aula um tanto diferente. “Como ele tocava violão, a gente tinha de acompanhar.” Também estudou com as professoras Michele Dias (“bem exigente, que cobrava bastante”) e Sarah Lima (“muito organizada no conteúdo que passava”).

Porém, por um período de dois anos, o Instituto Anelo ficou sem professor de bateria. Para não se afastar da música, passou a estudar contrabaixo com Dorival Oliveira. Isso até a chegada, à instituição, do professor Beto Batera. “Ele foi bem importante pra mim. Todos foram, na verdade, mas o Beto foi especial porque ele começou a mostrar a parte técnica do instrumento e a aplicação dela, de forma musical. Foi nesse período que eu comecei a me dedicar mais à bateria.”

FORMAÇÃO

Além do Instituto Anelo, Filipe Lapa estudou, entre 2013 e 2014, no Souza Lima – Conservatório e Faculdade de Música, em São Paulo. Ele lembra que o Anelo tinha uma parceria com a instituição, que concedia bolsas de estudo para alunos e professores do Instituto. “O Beto me indicou”, conta. “Foi nessa época também que comecei a atuar como monitor nas aulas do Anelo”, diz Filipe, relembrando os primeiros passos como professor.

No Conservatório Souza Lima, teve aulas com dois docentes que também considera fundamentais em sua formação: Carlos Ezequiel (músico alagoano formado na prestigiada Berklee College of Music em Boston, nos Estados Unidos) e Fernando Baggio (que foi aluno do próprio Souza Lima). Outro mestre com quem estudou, por indicação de Beto Batera (ele de novo), foi Jayme Pladevall, músico campineiro que é referência entre bateristas não só da cidade, mas de todo o país.

“O Beto Batera me chamou para trabalhar na loja de instrumentos musicais dele. E propôs que, um dia na semana, no horário do almoço, eu fizesse aula com o Jayme Pladevall.” Segundo Filipe, a loja tinha uma sala de aula e Jayme era um dos profissionais que utilizavam o espaço para lecionar.

“O Jayme foi um dos caras mais importantes que tive como professor. Foi o cara que deu aula pra gente como Edu Ribeiro, Ramon Montagner, Pepa D’Elia, enfim, deu aula pra grandes músicos, grandes bateristas que a gente tem no Brasil. O Jayme me mostrou coisas que eu não conhecia, como o jazz, a música brasileira, os ritmos cubanos. Ele dá essa geral e você escolhe o caminho que quer seguir.”

MOMENTO DE DECISÃO

Mesmo com toda essa dedicação ao estudo da música, quando completou 18 anos Filipe ficou um ano sem “encostar na bateria” – ele fez o alistamento militar obrigatório e foi convocado a servir ao Exército Brasileiro. “Mas, até aí, eu não tinha decidido se queria ser músico”, lembra. Essa certeza veio depois de dar baixa do Serviço Militar e voltar, de forma mais ativa, ao Instituto Anelo.

“Foi quando comecei a estudar e a me dedicar de verdade”, afirma, lembrando que, nessa época, teve aulas com o baterista Bruno Tessele, que conheceu no próprio Anelo quando o músico se apresentou no Instituto ao lado do guitarrista paulistano Michel Leme. “O Bruno estuda muito e me mostrou que, se quisesse ser músico, teria de me dedicar bastante, teria de estudar todos os dias. Ele me ajudou a ter uma rotina.”

Depois teve aula de Prática de Banda com o Paulinho Vicente e o Felipe Silveira, dois grandes músicos de Campinas. “Na verdade, são grandes músicos de nível mundial, incríveis. E recentemente fiz algumas aulas online com o Paulo Almeida, outro grande baterista brasileiro que mora na Suíça e que tocou com grandes nomes como Hermeto Pascoal e Arismar do Espírito Santo. Foi um cara que abriu muito mais minha mente para a bateria”, diz Filipe.

O baterista em apresentação de final de ano no Anelo (Foto: Edis Cruz)

VIAGENS INTERNACIONAIS

Com o Instituto Anelo, Filipe Lapa teve a oportunidade de viajar duas vezes ao Exterior. Em 2017, o baterista integrou o grupo de músicos do Instituto que participou do Arcevia Jazz Feast, seminário de jazz e improvisação que ocorre anualmente na cidade de Arcevia, na Itália. E em 2019, ele embarcou com o grupo que representou a instituição no Standard Bank National Youth Jazz Festival, na cidade de Makhanda, na África do Sul.

“A viagem para a Itália foi algo novo pra mim. Eu nunca tinha viajado de avião, nunca tinha saído do país. Foi uma experiência incrível conhecer outro lugar, outra cultura, outra língua. Foi sensacional, foi algo que eu não imaginava fazer nunca. E hoje vejo que é possível. É lógico que tem um esforço muito grande por trás, mas esse esforço vale a pena.”

A grande lição que trouxe dessa experiência foi a vontade de conhecer mais profundamente a música brasileira. “Os italianos respeitam bastante os brasileiros pela música que a gente carrega, pela nossa história. Isso foi o que mais me impressionou. Além disso, diz, a cidade é aconchegante e o festival permite um contato tranquilo e muito afetivo entre os participantes. “Quero voltar mais vezes.”

Sobre a África do Sul, afirma que também foi uma experiência inesquecível. “É um festival maior do que o da Itália, mais pessoas, mais músicos, uma experiência totalmente diferente. Essa viagem me deixou muito ansioso. Eu sou baterista, tenho uma ligação muito grande com ritmo, e a África é a mãe dos ritmos.”

Para Filipe, além de a cultura africana ser sensacional, gostou do contato que teve com músicos de diversos países, tanto do continente africano quanto dos Estados Unidos, Itália e China. “Você vê a cultura muito evidente em cada país representado. Foi incrível ver que a música une seres totalmente diferentes, com culturas diferentes, com personalidades, com jeitos diferentes.”

Também chamou a atenção o fato de, assim como na Itália, os sul-africanos respeitarem muito a música brasileira. “A noite que a gente tocou foi uma das mais cheias do festival. Todo mundo queria ver a gente tocar, o que reforçou aquele sentimento de valorizar o que se tem, o lugar de onde se vem e o que você é.”

Filipe com o grupo do Anelo na TV Globo; na Itália; e na África do Sul: oportunidades

OUTRAS EXPERIÊNCIAS

Segundo Filipe, o Anelo lhe proporcionou muitas experiências incríveis ao longo dos anos, e que não necessariamente passam pelo portão de embarque de um aeroporto. Ele cita como exemplo o fato de ter se apresentado no Lar dos Velhinhos e na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). “São lugares que nos deixam emocionados e nos fazem refletir.”

Outra experiência que considera inesquecível foi ter subido ao palco do Teatro Municipal José de Castro Mendes para o show de lançamento do CD “Vila dos Meninos”, da Banda Anelo. “Era bem novo, tinha uns 15, 16 anos. Foi uma responsabilidade muito grande tocar num teatro.” Filipe também se apresentou com o Anelo nos programas Caldeirão do Huck e Como Será?, da TV Globo.

CARREIRA

Além de dar aulas no Anelo, Filipe toca profissionalmente e já dividiu o palco com músicos de renome e carreiras sólidas. Ele destaca, por exemplo, a cantora italiana de jazz Susanna Stivali, com quem tocou no Brasil e na África do Sul. “Tocar com ela é sempre bom, sempre aprendo muito. É uma artista grande, gravou com Chico Buarque e é respeitada por onde passa.”

Também se apresentou com o saxofonista norte-americano radicado na África do Sul Mike Rossi, em um workshop realizado em Arcevia, na Itália, ao lado dos sul-africanos Sean Sanby (contrabaixo) e Marco Maritz (trompete). “Mike é professor, músico, compositor e tocou com a Aretha Franklin – não preciso dizer mais nada, Depois o revi na África do Sul, foi incrível.”

“Tenho pensado muito no meu futuro, no que vou fazer. Mas um projeto que penso é ter um trabalho meu, não apenas acompanhar artistas, mas ter um trabalho meu, e poder viajar o mundo com esse trabalho, tocar em festivais, em clubes de jazz. Ainda é um sonho, mas, é algo que quero fazer.” (Filipe Lapa)

Entre os brasileiros, ele destaca Fernando Corrêa, guitarrista, compositor e arranjador formado na Áustria que deu aula Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, em Tatuí (SP), no Souza Lima e é integrante da Orquestra Jazz Sinfônica. “Toquei com ele uma vez e foi sensacional.”

O outro é o Marcos Teixeira, com quem se apresentou duas vezes. “Quando ele me chamou fiquei surpreso. Foi super legal. É um cara grandioso, tem uma carreira gigantesca. É um violonista, guitarrista, compositor que dá aula na Emesp – Tom Jobim e que tocou com vários artistas que a gente conhece e admira, como Rosa Passos, Leny Andrade, Eliane Elias, Emílio Santiago, Flávio Venturini e Gal Costa.”

Sobre seus projetos futuros, diz que é uma pessoa que sonha bastante, que pensa muito. “Essa quarentena tem ajudado muito nisso. Tenho pensado muito no meu futuro, no que vou fazer. Mas um projeto que penso é ter um trabalho meu, não apenas acompanhar artistas, mas ter um trabalho meu, e poder viajar o mundo com esse trabalho, tocar em festivais, em clubes de jazz. Ainda é um sonho, mas, é algo que quero fazer.”

O ANELO

Para ele, um projeto como o Instituto Anelo, que leva música à periferia da cidade, é importante por dar oportunidade a quem não tem. “Tive a oportunidade de tocar num teatro grande, de tocar na televisão, de viajar para outro país, tudo graças ao Instituto Anelo. Significa também a oportunidade de um trabalho, de uma profissão, de ser músico. Além disso, te possibilita conhecer a cultura do nosso país, de conhecer música boa. Então, eu diria que é um lugar de oportunidades.”

Não é exagero dizer que Filipe é um exemplo real do poder transformador e ao mesmo tempo agregador da música. Tanto que seu pai “abraçou” a causa do Instituto Anelo – Wagner Lapa, um profissional autônomo de 46 anos, está na segunda gestão como vice-presidente da instituição, trabalho este voluntário.

“A gente sempre esteve presente na trajetória do Filipe no Anelo, vendo o desenvolvimento tanto dele como das outras crianças”, diz Wagner, que completa: “Cada pai tem que participar e ajudar o filho a crescer na música, se ele tem como propósito estudar e se tornar músico. A trajetória do Filipe se deu assim.”

*Texto: Lalá Ruiz